28.6.10

+ desejos.


meus produtos do Brendel ainda nem chegaram, e eu já to ambicionando mais coisas. e no brasil, como isso é caro.

sábado a noite, perambulando imprudentemente (cito a imprudência, pq eu sempre compro mais cds e livros do que posso....é uma fraqueza!) pela livraria cultura, eu achei uma pérola da música universal: a gravação lendária da martha argerich tocando várias obras que ela toca com tanta personalidade, que quase podem ser consideradas "dela".
já fazia tempo que eu procurava uma gravação em cd dela tocando a partita em c menor de bach (já postei um vídeo dela aqui no blog tocando o capriccio disso)...e nesse iluminado dia, ACHEI!...
mas foi uma felicidade tão grande, tão imensa...pena que durou uns 5 seg, pq foi o tempo do meu olho alcançar a etiqueta do preço do cd: 72,00 reais!
prometo que fiquei parada, refletindo uns 10 min. sem exagero.
decisão delicada, difícil.
a única razão que me levou a não comprar esta pérola imediatamente foi o fato de que daqui a algumas horas, estarei em solo americano, e lá, o mesmo cd custa 16,00 dólares (eu não sabia disso no momento da dúvida, mas presumia.) comprar somente as faixas em mp3 é ainda mais barato (9,34 dólares)...mas eu gosto da caixinha, do encarte; eu gosto.

já achei no amazon, já comprei. eu recomendo tanto, tanto!
mais ainda pq é uma gravação ao vivo de 1978. e a martha ao vivo é absolutamente imbatível. como ela mesmo diz, quando toca essa partita de bach, sente estar "improvisando". tem muito swing!

e quando eu chegar em casa, lá em washington, parece que terei algumas diversões :)

hanon+bach

num post anterior, falei que tinha ido por UNASP; lá , nas horas vagas, sempre me divirto com uns amigos músicos. o súllivan e a adella já estão ficando famosos aqui no blog de tanto que falo neles.
nesse dia, a gente resolveu tocar piano (daquele jeito "bonito") e eu até arrisquei o clarinete, já que estou sendo obrigada a fazer uma matéria de prática instrumental na faculdade, e tive que escolher um instrumento de sopro pra tocar. detalhe que eu peguei no clarinete naquela manhã....mas por hora, vou postar aqui o vídeo do piano, que até editado está, já que tem umas partes que nem eu aguento assistir, de tão ruim....rsrs..
o hanon a gente saba de cór, mas o bach foi leitura (péssima) a primeira vista do rondeaux da partita nº 2.

ah, só a ressalva de que o computador filma espelhado....então eu estou sempre nos graves e ele nos agudos :)

e repito: é sempre divertido.


video

27.6.10

corre, corre.

correria.
não tenho internet em casa ainda.
amanhã, se tudo der certo, voo pra os EUA.
malas, ligações, pagar as contas....isso tudo tem ocupado meus dias.

prometo que as postagens vão continuar a medida que eu tiver acesso a internet durante a viagem!

bjos a todos e eu ESPERO (sinceramente) que meu próximo post seja feito da américa do norte.
oremos por isso.

;)

24.6.10

alegria, alegria


olha que notícia feliz que recebo:


é muita alegria num concerto só: Nelson Freire tocando o 4º de beethoven.......yay!


matando a saudade.


estou assistindo uma prova de piano, aqui no campus da faculdade que freqüentei por 4 anos...
ontem, conversando com uns amigos que ainda fazerm faculdade de música, revi as apostilas de regência, os livros de estudo para as provas de história da música, os relatórios de estágio (disso eu não tenho saudade)....me deu uma nostalgia e uma saudade desse universo.

nós três pertencemos ao mesmo mundo. a gente conversa na mesma língua. ela é cellista e ele pianista! e as conversas são infinitas, as aspirações parecidas. é bom ter gente assim.

eu gosto de estudar, gosto da aura que envolve os estudantes de música...
ultimamente tenho feito isso sozinha mesmo. é bom!

o mestrado que me aguarde.
e logo!

20.6.10

palestrina

esse vídeo foi feito no mesmo dia do "oh deus de amor". quem gostou da minha participação no dvd do novo tom cantando "a minha esperança" em lírico, vai gostar desse post.
é igualmente imbecil.
sullivan, adella e moi arranhamos um "oh salutaris hostia" de palestrina.
música da renascença já é mais chatinha de fazer e tá faltando o baixo, pq é originalmente escrito para quarteto.

no começo, a razão do riso descontrolado é a constante desafinação da minha linda adella numa nota que é oitavada. aparentemente simples, mas como ela sempre começa a rir, a nota nunca sai afinada.....e a gente já tava esperando por isso...rs.

entre erros de letra, muitas desafinações (inclusive o piano!!!), o sotaque da adella de americana cantando em latim, quebras de voz e até invenção de notas a gente se divertiu!

e a gente se diverte com tão pouco :)



video

18.6.10

alento pro cansaço

estou no aeroporto, rumo a recife. é tarde, e brahms é infalível; sempre me inspira, me melhora.
tudo nessa obra é lindo, desde a introdução até as notas finais!
resolvi postar porque percebi no twitter que tinha gente que não conhecia, e na minha opinião, tudo de brahms deve ser ouvido, compartilhado, degustado!

tem uma outra versão no youtube em que os cellos estão sendo mais valorizados, mas o coral tava muito desafinado, então to postando essa versão, que só tem a primeira música do requiem....no youtube tem o resto.

enjoy e feliz sábado!


..


acordei atrasada.
saí de casa sem comer nada e apressada.
corri atrás do ônibus e ele me esperou.
sentei esbaforida no assento do veículo e o ipod exibia um lembrete que esqueci de desabilitar :"today is the 16th".
ri um riso simples. interessante como as coisas se desmancham nessa vida...
nem havia me dado conta que hoje era o dia 16 e depois do lembrete, esse pensamento não voltou a cruzar minha mente.
já faz tempo. tempo suficiente pra que eu esquecesse que dia era hoje.

triste

ela aparece a porta com choro na voz. e eu não entendo, não ouço o que foi!
ela vai nos deixar. não porque queira, por cansaço, fadiga. claro que não.
quiseram, e é assim que vai ser. ponto.
o abraço que se segue é silente e amargo! doloroso isso.
ela não é orgulhosa. não esconde a tristeza.
e a mente tenta de imediato achar uma solução, uma alternativa. nada.
é tudo pesar.
ambas nos dirigimos ao portão que me acolhe e a despede.
depende do humor.
triste. e já ando cautelosa, com medo do humor oscilante dessas grades antigas que podem ser traiçoeiras.
na caixa de plástico uns livros infantis, flores e a saudade dos dias em que um dia como esse era inimaginável.

nós fomos.
eu volto.

16.6.10

falando nele..

resolvi colocar um pedacinho do dvd que comprei no dia que postei o post que antecedeu esse.
atenção especial em 4:24 em diante .....me deu uma alegria de ver isso!
é tão bom ser músico!

enjoy!

14.6.10

desejo.





música e literatura são duas coisas que em mim, sempre foram separadas por uma linha tênue e frágil. por isso, a mistura de ambas resultou na minha atividade profissional.

alfred brendel é um pianista que ouço bastante, especialmente tocando obras de schubert, mozart e haydn. sempre gostei dele, mas nunca tinha lido nada muito profundo a seu respeito.
hoje resolvi pesquisar e só tive surpresas felizes.
descobri que sua instrução formal de piano aconteceu dos 6 aos 17 anos. daí pra frente, ele nunca mais teve professor. descobri que ele é amante das artes plásticas, pois tem um acervo de quadros assinados por gente como pablo picasso, leonardo da vinci, henry de toulouse-lautrec e outros e o melhor de tudo: é escritor (e isso eu não sabia).

comecei a procurar suas obras escritas, e encontrei esse livro. imediatamente ao pousar meu olhar sobre ele, desejei possui-lo. e essa vontade só aumentou ao ler o prefácio, que resumiu basicamente todos as sensações que a literatura e a música me causam.

extraí uma pequena porção de um longo e belo prefácio (adoro prefácios), e este certamente vale a pena ser lido:

"Next to my involvement with music, I have always been attracted by words. To use them with a modicum of elegance even when dealing with a subject which, supposedly, starts where words end, has remained a challenge. Quite frequently, my essays arose from questions for which the literature available to me did not provide satisfying answers (...)"

agora, collected essays PRECISA fazer parte da minha biblioteca.
vou cuidar disso já.

sugestão



essa é uma das criaturas que me inspira e intimida ao mesmo tempo.

além de escritor de literatura brasileira, tem registros escritos em diversos temas como filosofia, política e até música. o livro "pequena história da música" é um dos mais geniais compêndios da música com os quais já entrei em contato. nele, mário conta a história da música ocidental como um professor narra uma história a seus alunos. existe enredo, personagens. fantástico. a linguagem chega perto do poético sem fugir do prosaico. a descrição é primorosa.

uma pérola. meu exemplar, por ter pertencido ao meu pai em seus tempos de estudante, já está com a capa muito envelhecida. talvez eu dê uma de chico buarque e saia pelos sebos e sites de compras na internet atrás de livros gêmeos, afim de conservar meu acervo.
eu amo ler o Grout ou o Lang; mas pra quem não tem paciência, esta é uma boa solução ;)

o quarto de beethoven.

esse é o meu concerto pra piano de beethoven favorito!! e essa interpretação é memorável!!

um professor de história da música que me mostrou essa versão, e desde então, eu venho assistindo-a repetidamente.

a pianista martha argerich diz ter tido sua primeira grande "impressão musical", aos quatro anos de idade, ao ouvir esse concerto ao vivo tendo Arrau como solista. por essa ocasião ter sido tão decisiva em sua vida como pianista, ela não toca esse concerto.

a dupla zimmerman + bernstein dispensa comentários. aqui só tem parte do primeiro movimento...no youtube tem o resto!

enjoy!

gracinha ;)

11.6.10

recreio


acabo de ver uma cena linda:

dois meninos coreanos de 7 anos, com a lancheira aberta, dividindo um sushi durante o recreio escolar.


;)

o relato.

eu me sentei no meu lugarzinho na platéia central e comecei a reler o programa da noite.
eis que se não quando,me deparo com uma feliz realidade: a orquestra tocaria Die Moldau (a música a qual faço alusão nesse texto.)
além disso, o maestro era tcheco (Jakub Hrusa) e tinha 29 anos. regente titular da sinfônica de Praga. um gênio. eu frequento salas de concerto e a regência de ontem foi memorável.
o programa começou com a peça de Joseph Suk (scherzo fantastique, op. 25) e diga-se de passagem, até hoje não ouvi nada de Suk que não tenha gostado. principalmente um trecho de quarteto de cellos ontem me tirou o fôlego. absolutamente lindo!
depois, tocaram o concerto pra violino e orquestra em lá menor de Antonin Dvorak, com um violinista russo (Boris Brovtsyn) que tb é bem novinho. por fim, depois do intervalo, a orquestra tocou 3 dos 6 excertos que formam a obra Má Vlast, de Smetana.
o mais interessante de tudo é que nas duas primeiras obras o regente regeu com partitura, uma regência bonita, segura, firme. mas nas peças de Smetana - que são tão conhecidas na República Tcheca como o sambalelê é no Brasil - ele apareceu sem partitura, e ao reger, parecia mergulhado dentro da música. aquelas melodias estavam no seus sangue. conhecia cada nota de cada instrumento, cada respiração... e ele sorria quando a música sorria. houve entrega! bonito de se ver.
melhor de tudo é ter a oportunidade de assistir ao vivo uma peça que há tempos eu ouço e adoro!
dormi tarde de novo, mas a música me descansou ;)

10.6.10

os tchecos







todos tchecos.
e hoje, na sala sp, vou me transportar novamente pras terras do rio vltava, e reviver a poesia de praga. vou obras desses 3.

amanhã eu conto tudo.

(sei que é meio óbvio, mas por motivos educativos, se vc clicar no nome de cada um deles, vai aparecer a biografia de cada um. é interessante.)

;)






a noite de ontem.

ontem aconteceu algo que odeio: cochilei no ônibus enquanto voltava pra casa e uma colega de trabalho me acordou ao se aproximar meu destino. odeio ser acordada nessas condições. saí cambaleado, assustada e ela rindo horrores.
abri a porta de casa. meus passos ecoando mais do que o normal, porque o 33 ainda não tem tapete, mesa de jantar ou quadros. devorei uma manga inteira e finalmente, me assentei no sofá, com os olhos na varanda, que me proporciona uma suprema vista urbana. felizmente, eu comprei uma nova caneta tinteiro recentemente. e com o circle book em mãos, comecei a transcrever esses cansaços de fim de dia e a minha raiva por ter dormido demais no ônibus. observei por mais algum tempo os prédios altos e o pôr-do-sol paulistano.
então, foi que a alegria tomou meu espírito. fui consultar minha nova "mini-biblioteca"...tantas opções à vista! escolhi o 2º volume de "o continente", érico veríssimo. e por 40 minutos, eu mergulhei no universo gaúcho, na rotina do Licurgo Cambará e da Alice Terra...o 33 ainda não tem televisor, nem internet e muito menos um som decente. até o computador está ausente para uns reparos.
depois dessa leitura, dormi. dormi feliz e cedo.
às 8 da noite, minha irmã me liga. programa de mulher que eu queria ter feito domingo com a prima, mas a presença masculina nos impediu.
e eu fui, sem nem pensar duas vezes. é bom ter irmã por perto.
cheguei tarde, muitíssimo tarde.
e hoje, os olhos reclamaram para abrir.
de qualquer forma, as crianças me esperam.
bom dia.

9.6.10

17 anos atrás




aos 5 anos, eu já gostava de microfone e de roxo.
de fato, na minha essência, pouca coisa mudou de lá pra cá.

8.6.10

dia 5

sim, e eu esqueci.
dia 5 de junho (sábado passado) foi o aniversário de 69 anos a brilhante pianista argentina Martha Argerich. pra quem já tocava o concerto de schumann aos 10 anos de idade, é um belo tempo de experiência, não?
apesar de muita gente já saber quem é o meu preferido ao piano, tenho ouvido muita coisa da Martha ultimamente, principalmente obras de bach, schumann, ravel, rachmaninov e prokofiev.
é absolutamente impressionante a energia musical que ela transmite. e a idade só tem agregado profundidade e emoção às suas interpretações.
pra quem quiser conhecer mais o trabalho dela, recomendo o filme "conversa noturna", um documentário contando a sua trajetória.
segue abaixo, um vídeo dela tocando uma de suas marcas registradas: a partita n. 2 em dó menor de bach e outro dela mais novinha, tocando o 3º concerto de prokofiev.
enjoy.

Prokofiev - 3rd Piano Concerto, fragment

Martha Argerich - Bach Partita No. 2 - Verbier Festival 2008

7.6.10

para refletir


pierre boulez, um importante regente e compositor francês, escreveu algo em seu livro "a música hoje" que me chamou a atenção: "O que podemos conhecer do mundo é a sua estrutura, não a sua essência. Nós o pensamos em termos de relações, de funções, não de substâncias e de acidentes. Assim deveríamos fazer: não partamos absolutamente das substâncias e dos acidentes da música, mas pensemos nela em termos de relações, de funções".
o maestro ainda dá masterclasses de regência no conservatório de paris e em outros festivais de música pela europa.

estou postando dois vídeos (clique nos números para assisti-los):
1- matéria sobre o festival de Lucerne, onde boulez deu masterclasses, e este vídeo está em inglês.
2- masterclass ministrada por ele no conservatório de paris. procurei, procurei, mas só tem esse vídeo. minhas desculpas, mas ele está em francês. mesmo assim, acho que é valido.

enjoy ;)

ps: judiação dos pobres aluninhos que se dignam a reger na frente dele....bem nervosos!

.


primeiro amanhecer no 33.
neblina espessa fazendo com que o nascer do sol parecesse tinta alaranjada borrada na minha janela.
cobertor macio, cama convidativa, frio congelante fora dela.
um banho acordaria.
nos 10ºC da manhã paulistana, um banho bem quente aqueceria o início da segunda-feira.
pena que a pilha do gás acabou, e no meio de muita fumaça e calor, a água gelou.
e eu despertei.

a semana começou enérgica, feliz ou infelizmente :)

6.6.10

isso é um prefácio.


enquanto voltava do rio de janeiro, já acomodada dentro do avião, eu lia meu exemplar de junho da revista piauí. na seção "questões vernáculas", a revista publicou um artigo de Chico Buarque, entitulado "os dicionários de meu pai", que depois descobri ser o prefácio da nova edição do dicionário analógico de Francisco Fereira dos Santos Azevedo...

tão brilhante que tive que colocá-lo aqui :)

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Pouco antes de morrer, meu pai me chamou ao escritório e me entregou um livro de capa preta que eu nunca havia visto. Era o dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Ficava quase escondido, perto dos cinco grandes volumes do dicionário Caldas Aulete, entre outros livros de consulta que papai mantinha ao alcance da mão numa estante giratória. Isso pode te servir, foi mais ou menos o que ele então me disse, no seu falar meio grunhido. Era como se ele, cansado, me passasse um bastão que de alguma forma eu deveria levar adiante. E por um bom tempo aquele livro me ajudou no acabamento de romances e letras de canções, sem falar nas horas em que eu o folheava `a toa; o amor aos dicionários, para o sérvio Milorad Pavic, autor de romances-enciclopédias, é um traço infantil no caráter de um homem adulto.
Palavra puxa palavra, e escarafunchar o dicionário analógico foi virando para mim um passatempo (desenfado, espairecimento, entretém, solaz, recreio, filistria). O resultado é que o livro, herdado já em estado precário, começou a se esfarelar nos meus dedos. Encostei-o na estante das relíquias ao descobrir, num sebo atrás da Sala Cecília Meireles, o mesmo dicionário em encadernação de percalina. Por dentro estava em boas condições, apesar de algumas manchas amareladas, e de trazer na folha de rosto a palavra anauê, escrita a caneta-tinteiro.
Com esse livro escrevi novas canções e romances, decifrei enigmas, fechei muitas palavras cruzadas. e ao vê-lo dar sinais de fadiga, saí de sebo em sebo pelo Rio de Janeiro para me garantir um dicionário analógico de reserva. Encontrei dois, mas não me dei por satisfeito, fiquei viciado no negócio. Dei de vasculhar livrarias país afora, só em São Paulo adquiri meia dúzia de exemplares, e ainda arrematei o último `a venda no Amazon.com antes que algum aventureiro o fizesse. Eu já imaginava deter o monopólio (açambarcamento, exclusividade, hegemonia, senhorio, império) de dicionários analógicos da língua portuguesa, não fosse pelo senhor João Ubaldo Ribeiro, que ao que me consta também tem um, quiçá carcomido pelas traças (brocas, carunchos, gusanos, cupins, térmitas, cáries, lagartas-rosadas, gafanhotos, bichos-carpinteiros).
A horas mortas, eu corria com os olhos pela minha prateleira repleta de livros gêmeos, escolhia um a esmo e o abria a bel-prazer. Então anotava num Moleskine as palavras mais preciosas, a fim de esmerar o vocabulário com que eu embasbacaria as moças e esmagaria meus rivais.
Hoje sou surpreendido pelo anúncio desta nova edição do dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Sinto como se invadissem minha propriedade, revirassem meus baús, espalhassem aos ventos meu tesouro. Trata-se para mim de uma terrível (funesta, nefasta, macabra, atroz, abominável, dilacerante, miseranda) notícia.

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um belo prefácio que me fez querer o tal dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo :)


3.6.10

n.33

o outono nem terminou e são paulo vive circundada pelos ventos gelados que vem do sul. o entardecer de hoje foi bonito, cinza e frio.
nem sei exatamente como fazer esse relato, porque faz tanto tempo que tenho vontade de fazê-lo, que agora que é chegada a oportunidade, me sinto tentada a achar que não vou conseguir colocar em palavras tudo o que gostaria. é tudo tão importante que torna essa tarefa mais difícil.
mas vou tentar.

acordei cedo mesmo sendo feriado. acordei por acordar. acordei assim porque hoje, pela primeira vez na minha vida, abri os olhos tendo a certeza de que meu próximo sono aconteceria na minha própria casa.
levantei rápido, e fui a pé para o apartamento novo. abri a porta, acendi as luzes e sorri um sorriso tão grande, tão feliz. andei pelos cômodos vazios e já enxergava os móveis, as pessoas, a família, as risadas, os filmes, a música. fiquei algum tempo nesse estado de contemplação, muito quieta, mas não em silêncio. na minha cabeça acontecia tanta coisa que nem percebi o tempo passar. absolutamente absorta nesses devaneios, o toque do interfone me trouxe de volta ao apartamento.
a mudança chegou no começo da tarde.
a medida que as caixas eram trazidas, minha alegria só aumentava.
a primeira caixa que foi deixada dentro de casa continha uma etiqueta com a seguinte palavra inscrita em letras garrafais:"LIVROS". daí eu lembrei dos tantos anos que esses livros ficaram em caixas, ou apertados em três prateleiras pequenas. o acesso a eles era difícil. a disputa pelo espaço era enorme, e eu, com o coração quebrantado, sempre tinha que priorizar alguns livros. os escolhidos ganhavam as 3 prateleiras. os tantos outros, de volta pras caixas. mas não gostava disso. odiava, na verdade. livro não se prioriza. é como filho! é preciso ter todos a vista, a disposição, prontos para serem consultados, porque a curiosidade e a arte não têm hora. vida de internato tem alegrias, mas tem esses dissabores...
pois ali estavam, todos eles, me olhando. e eu pronta pra me redimir e oferecê-los prateleiras infindas, organizá-los por assunto, por autor, por tamanho e vê-los todos juntos; sentir aquela sensação deliciosa de indecisão na hora da leitura, pois todos eles estariam ali, ao meu dispor, ao mesmo tempo.
a segunda caixa tinha a seguinte etiqueta: "PARTITURAS". daí o sorriso foi menos aparente, mais emocionado. Sabe quando a gente sorri com o olhar, com ternura? pois foi esse o meu riso. pensei em todas as vezes que tive vontade de tocar uma peça, e lembrei que os livros de partituras estavam encaixotados. lembrei da vontade de poder ter acesso não somente `as notas, mas `aquela edição em especial, com os comentários e sugestões interpretativas do editor... lembrei do dia em que ganhei esses livros de partituras, com o seguinte bilhete: "comprei essas partituras quando tinha a sua idade. essa é a melhor edição que existe. eu já fiz bom uso....agora é a sua vez. um beijo, do papai".

e cada caixa que chegava era um sorriso diferente, uma memória preciosa... finalmente, as minhas coisas na minha casa!
contemplei longamente a vista da varanda. céu estava cinza, coberto, deixando escapar uns raios de sol. tarde bonita.
os móveis já estavam quase todos dentro do apartamento, mas faltava o principal. pouco tempo depois, num esforço imenso, alguns homens carregavam meu pesado e amado piano. o pobre piano que passou anos morando em casas as quais ele não pertencia. mas ele sempre foi meu, desde que tenho 11 anos de idade. e eu sempre soube que ele voltaria pra mim. hoje isso aconteceu. e esse encontro foi belíssimo.
depois de ter tudo dentro de casa, fiquei olhando aquela sala durante alguns minutos. suspirei e mais do que nunca, sorri de felicidade, de contentamento. essa era a minha casa.
apaguei a luz e tranquei a porta.

amanhã é dia de arrumar a bagunça no 33 :)

a título de protesto


esse era o acervo pessoal de partituras dele.
tudo bem que ele é o Horowitz.
ele pode!
mas músico que é músico é assim....

depois, dizem que eu tenho muita coisa...

aiaiai....

2.6.10

para,


quando abro um livro, a dedicatória é algo que geralmente me emociona.
as palavras são poucas, sucintas e dizem muito.
resolvi publicar algumas que acho interessantes:


«Para John Dillinger, na esperança de que ele ainda esteja vivo.»Dedicatória de William S. Burroughs (1914-1997) no poema A Thanksgiving.

«Além de não andar bom de saúde, estou sem cheta. E imperador por imperador, monarca por monarca, tenho em Nápoles ao grande conde de lemos que, embora eu não ostente graus nem diplomas universitários, me mantém, me ampara e me faz mais mercês do que as que posso apetecer.»Miguel de Cervantes (1547-1616), segunda parte de Dom Quixote de La Mancha (1615).

«Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas.»Machado de Assis (1839-1908), Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881).

« Para Antônio Cândido, com a mão estendida para a amizade» Vinicius de Moraes (1913-1980), Antologia Poética(1945).


...

a musa dele.


pra quem me acompanhou no twitter ontem, percebeu que eu estava bem entretida com meus 8 novos álbuns. passei a noite ouvindo música, e mesmo assim, não ouvi nem dois álbuns inteiros.

uma das pérolas que adquiri ontem foi essa: o concerto n. 4 de beethoven pra piano e orquestra, sob a interpretação de Guiomar Novaes, que pra quem não sabe, foi uma exímia pianista brasileira, filha do conservatório de Paris, aluna de Debussy e musa inspiradora do Nelson Freire.

esse disco não só tem o concerto de beethoven, mas tem performances de peças que a imortalizaram como pianista, como a trancrição para piano da melodia para flauta e cordas da ópera orfeu e eurídice. essa peça, em especial, o Nelson toca bastante por aí, tendo a interpretação da Guiomar como referência.

e foi com a música dela que eu terminei meu dia :)

1.6.10

só acontece em DC

ultimamente, a população não "ouve"...
por uma iniciativa do jornal The Washington Post, o famosíssimo violinista Joshua Bell chegou a tocar por mais de uma hora numa das principais estações de metrô de DC (com seu violino Stradivairus avaliado em 3,5 milhões de dólares) e foi ignorado por 1097 pessoas, conseguindo "arrecadar" apenas 32,17 dólares.
vale acrescentar que semanas antes ele se apresentou com orquestra sinfônica de Washington em uma importante sala de concerto e centenas de pessoas pagaram uma boa quantia de dinheiro para vê-lo...
no metrô, de graça, por tempo indeterminado.....praticamente ninguém deu ouvidos.
então eu me pergunto.....música boa é música cara? até onde queremos legitimamente"ouvir"??
fica aí o vídeo desse momento vergonhoso, pra quem quiser conferir.